(Source: SE-EU-PUDESSE)




Feche os olhos e finja que é apenas mais um pesadelo ruim, é assim que eu tenho feito.

O jogo no tapete, por João P.
- Dê as cartas, garota. Me diz quantos anos você tem. - perguntei, olhando em seus olhos de menina. Havia acabado de conhecê-la numa visita que fiz à casa de seus parentes.Não conhecia ninguém ali, muito menos ela. Mal sabia seu nome. Tinha ido fazer companhia ao meu pai que conhecia o dono da casa, mas como não gostava de muita conversa, música ruim e cerveja, fiquei na sala com a filha única de Éber, melhor amigo de meu pai.
-Devo ter a mesma idade que você. - disse sorrindo, como se já me conhecesse à algum tempo.
-E sabe minha idade? - a desafiei.
-Não. Porém meu pai vive dizendo que o filho mais velho de Marcos tem a mesma idade que eu e se dedica ao violão e eu não. Filho mais velho de Marcos estuda pra prova e eu não. Filho mais velho de Marcos arruma o quarto e eu não. Acho que cansei de você, filho mais velho de Marcos. - fica séria embaralhando as cartas. Se apoia num ombro, e deixa uma mecha de cabelo escapar por detrás de sua orelha.
-Bom… - penso em algo que disfarce minha má fama com essa garota, de olhar infantil, porém mente de mulher. - Sinto muito. - Fiz certo? - Você é uma moça bagunceira então.
-Tenho cara de bagunceira então?! - diz, abrindo um sorriso leve, ainda concentrada no baralho.
-Não tanto, mas, olha a bagunça que faz com o baralho.
Ela para, e não sorri. Junta as cartas e as coloca em meu colo. - Embaralhe do seu jeito, seu moço. - não sei se me achou chato ou se queria se fazer de difícil. E embaralho, conto suas cartas e as minhas. - A primeira fase do jogo é nomes de flores, animais, e por ultimo, de pessoas. Você tem de ser rápido em suas respostas, se não perde. Se souber jogar a gente vai pra segunda fase. Você sabe jogar, seu moço?
-Sei seguir suas instruções. - digo, fissurado em seu sotaque, que delicioso modo de pronunciar as palavras, quão suave seus lábios ao dizer palavras que nunca teriam me encantado.
Olhamos um para o outro. Com as cartas na mão. Jogamos cada um uma, que somaram o número cinco. Teríamos que dizer o nome de uma flor com sua letra correspondente, e eu logo diria minha flor preferida.
-Dandelion. Acho que ganhei.
-Dente de leão? - perguntou, segurando o riso.
-Sim. É a minha preferida.
-Espatódea. É a minha preferida, e começa com “e”. Acho que ganhei, seu moço. Não tens estudado direito, né? - estava zombando minha desatenção.
-Está bem, não contei direito. Por que gosta de espatódea?
-Quando pequena, minha mãe me levava e buscava na escolinha. A gente caminhava por muitos minutos até chegar lá. E eu ia colhendo flores durante o caminho. Quando chegava no portão da escola, eu as entregava pra minha mamãe. Ela pegava as menores e as colocavam no bolso da frente de sua camisa. A maior, a espatódea, ela colocava atrás de minha orelha para segurar meus cabelos. E nos dias seguintes, eu colhia as menores pra dar pra minha mãe, e duas espatódeas. Uma para mim e uma para segurar os cabelos dela. Mais tarde, quando eu já dançava, minha mãe sempre me levava mais cedo para me ajudar a ensaiar, e colocava uma espatódea em meus cabelos. As vezes, dependendo dos movimentos ela caía, mas minha mãe me ensinou que as coisas da vida são assim mesmo.
-Assim, como uma espatódea?
-Não, seu moço - ela sorriu, colocando as cartas no tapete -, as vezes, dependendo da intensidade de nossa dança, as flores não se seguram em nossos cabelos. Você não tem muitos, iria ficar uma flor presa à sua orelha atoa. É assim que são os sonhos, minha mamãe dizia. Não adianta a gente ter uma flor bela, e não poder usá-la. Mas, alguns tempos depois eu pude prová-la que não é bem assim.
-Eu acho que ela estava certa, como pôde provar o contrário?
-A um bom tempo ela lutava contra o câncer. Durante o tratamento, seus cabelos cairam. E como ela não podia mais me buscar na escola, eu a visitava na clinica sempre que saia de lá. Se eu não fosse, era como se minha vida estivesse incompleta. Não só meu dia, seu moço. Mas a vida inteira. - ela sorriu, cabisbaixa, e deixou uma lágrima escorrer, até morrer na pontinha fina de seu nariz. Seus cabelos cobriam seus olhos, enquanto seus dedos caminhavam pelos caminhos de seu tapete. - Sempre eu levava uma espatódea, e colocava atrás de suas orelha. Dizia que segurava seus sonhos, como ela me ensinou. Ela dizia que não, não haviam mais sonhos pra sonhar. Ela estava muito triste, seu moço. Foi uma época muito difícil para nós. Achei que ela fosse morrer, pois, até ela havia desistido de tudo. Mas, o tratamento deu certo. Havia uma grande possibilidade de dar errado, mas graças a Deus deu tudo certo. Ela voltou a fazer sonhos, eu também. Eu acredito em tudo agora, tudo que há de bom pra acontecer. Deus permitiu que a gente saísse feliz dessa.
-Percebo que você não provou que o que sua mãe lhe havia ensinado não era verdade.
-Como? - ajeitou sua franja, e olhou pra mim, ainda cabisbaixa.
-Sua mãe não tinha mais cabelo, e você a ajudou a fazer sonhos novos. Sei que o cabelo não é de nada, mas, eu acho também posso sair com uma espatódea por ai dançando e sendo feliz. - ela sorri e olha pra mim, assumindo então que estava chorando. Ela respira fundo, fecha os olhos, forçando que suas ultimas lágrimas descessem, e então deita a cabeça em seu ombro, ainda sorrindo.
Sua mãe nos trás dois copos de suco. Olhamos para ela, e quando ela vira as costas, voltando pra cozinha, nos encaramos e trocamos pensamentos. Ficamos um tempo refletindo esse momento e tentando descobrir o pensamento do outro.
-Acho que a espatódea é só uma figura pra representar meus sonhos, talvez seja só uma flor linda mesmo, ou uma música de Nando Reis. Os sonhos a gente faz e entrega nas mãos de Deus, seu moço. Ele sim sabe o que faz. Ainda espero por várias coisas pra me fazer feliz, mas vivo a cada dia.
-Ainda espera por que tipo de coisas, garota? É como na música de Nando Reis?
-“Não sei se o mundo é bom, mas ele ficou melhor depois que você chegou e perguntou…” - a interrompi, segurando sua mão. Ela se perdeu da música, e olhou pra mim. Eu sorri, com minha cara de tolo-tímido, mordendo os lábios como faço quando estou nervoso. Dou um tempo para nós, e complemento o trecho da musica que cantava.
-“Tem lugar pra mim?”
(Source: tokyo-yandere)


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(Source: fistsfullofhate)